A bruxaria e eu - Parte 1

Uma das minhas memórias de infância que eu tenho é relacionada a igreja. 

Eu triste porque minha irmã não deixou eu me apresentar com o vestido que eu queria no dia das mães. Eu no ônibus que alugaram para o casamento dos meus pais. Eu comendo bolinho na hora do lanche na sacolinha dominical. Lembro de ir caminhando na calçada cheia de árvores nos acompanhando até em casa, naquele tempo em que não haviam tantas construções no bairro e tinha alguns terrenos vazios que permitiam sentir o vento. 

Eu amava ir para igreja, mas em casa, confotme o tempo foi passando e eu crescendo, ir para igreja já não tinha mais esse brilho. 

Em casa eu tinha que ajudar a cuidar dos meus sobrinhos, porque meu irmão foi morar lá em casa...eu era uma criança, ajudando a cuidar de outras crianças. Durante o dia minha mãe lavava e passava roupa para os clientes, antes dos netos chegarem a sua preocupação diária era comigo que além de ser chata e mimada, ainda sofria de asma e estava toda hora no hospital. 

A noite, ela tinha que lidar com meu pai bêbado.

Ela era o pilar que segurava tudo e quando esse pilar balançava... Tudo mudava. 

Começou quando ela descobriu a traição do meu pai, esse choque foi tão grande que ela entrou em depressão. Ela saia na rua com faca, chorava muito, e se esquecia que fazia isso. 

Meu pai levou ela ao psiquiatra, ele a medicou e tivemos que cortar os longos cabelos negros e cacheados dela porque ela puxava eles com muita força. 

O pilar estava rachado, todos estavam atentos. 

Em paralelo, esses cuidados do meu pai com ela duraram só até ela melhorar mais. Depois daí, as rachaduras aumentaram cada vez mais.

Meu irmão mais velho já era usuário de drogas,  então ele trabalhava aqui e acolá, mas o vício ainda era maior. Então chegava virado em casa, cuspia paredes, gritava. 
Ao mesmo tempo que meu pai saía cedo do trabalho, não buscava mais eu e minha irmã na escola e ia direto para o bar.

Eu achava que em algum momento o deus daquela igreja iria fazer tudo o que eles falavam. E que nós voltaríamos a ter bons momentos. 

Teve uma vez que a amante do meu pai fez algo, até hoje não sei exatamente, mas dizem que ela foi embora e "terminou" tudo com ele. A gente tinha uma mesa redonda, de pedra na parte de cima. Quando ele chegou a noite, essa mesa foi o alvo dele, e junto com ela a panela de pressão também. Eu só lembro do barulho, porque estava no quarto "tentando" dormir.

Sempre no dia seguinte, era como se nada tivesse acontecido. 

Minha mãe que já não dormia mais no quarto com meu pai, acordava às 4:am, adiantava tudo o que poderia e preparava o café da manhã. 

As mais novas eram minha irmã e eu. Eu criança e ela adolescente. Antes o nosso pai levava a gente até um ponto no centro e então íamos andando, mas quando mudamos para o turno da tarde, passamos a ir de ônibus.

Eu lembro de um dia em específico que foi difícil pra caralho. Foi quando eu percebi que a minha família era toda problemática, nada igual ao que eu via na tv. Nesse dia meu pai tava mais uma vez, muito bêbado, ele falava cuspindo de propósito na cara da minha mãe. 

Eu olhei para aquilo e senti muito odio. Muito ódio. 

Ao mesmo tempo, nessa noite, meu irmão estava muito alterado pela droga. Então gritava muito, batia a cabeça na parede e se machucava.

Minha mãe corria até ele, e eu tentava distrair meu pai. 

Ao mesmo tempo, eu estava vivendo meus próprios dilemas. Eu era uma "jovem" da igreja, que tinha que andar no sol quente em bairros distantes para levar o máximo de outros jovens para a igreja. 

Eu tinha metas e números a cumprir, tinha que participar de campanhas, gincanas, reuniões, vender isso e aquilo. 

Eu só queria fazer parte de um grupo. Até que um dia, sem querer, fazendo pesquisas no Google tentando ver Harry Potter em partes no YouTube...eu encontrei a minha primeira fic.

Foi em 2011, eu tinha um celular da Nokia que pegava internet e muito tempo livre, já que eu era uma preguiçosa que quando não tava na escola ou igreja, não fazia nada para ajudar minha mãe em casa.

Descobrir as Fanfics foram o meu escape. Eu lia na escola e quando chegava em casa era a primeira coisa que eu fazia também. 

Meu interesse na igreja foi diminuindo e eu nem queria ir mais. Afinal, dormir até mais tarde no domingo e tomar café enquando lia mil universos, era MUITO MELHOR. (E ainda é)

Esses dias foram passando e passando, até que um dia meu irmão não tinha usado nada, ele estava lavando moto, mas meu oai estava muito bêbado e reclamou do barulho da mangueira e da "meleca".

O relacionamento deles sempre foi mais complexo, porque esse meu irmão mais velho é só mei irmão por parte de mãe. Então até hoje minha mãe sempre favorece ele porque ela diz que ele não teve pai como a gente. Antes eu achava injusto, afinal eu queria toda a atenção e aprovação dela só em mim...agora não mais. 


Enfim, meu pai saiu para querer puxar briga com ele, mas acontece que meu pai era menor e meu irmão alto e mais jovem. Ia dar muita merda.

Nesse dia eu, que sempre tive muito medo de levar qualquer bronca do meu pai, enfrentei ele. Segurei ele para não ir até mei irmão. 

Minha mãe até se jogou no chão para tentar impedir que ele fosse até lá, e meu irmão vendo a comoção chegou para ver o que tava acontecendo.

Enquanto escrevo isso, eu me emociono muito...mas não poso chorar tanto porque estou no trabalho, aproveitando que a internet caiu e quee tô sozinha no escritório.

Acho que todo aquele momento e prevendo o pior, a minha mãe se levantou e silenciosamente arrumou as coisas dela. 

Isso foi em 2013, eu tinha 15 anos e estava no primeiro ano do ensino médio. Eu acho que era em outubro. 

Ela deve ter falado algo para minha irmã do meio (na verdade somos em 4 agora, temos alguns falencidos, mas falo sobre isso depois) e eu fui no embalo de arrumar minhas coisas. 

Eu me senti muito feliz,  porque finalmente minha mãe tinha se ligado de que largar o meu pai era melhor solução e não ficar aguentando tudo calada como a obreira da igreja dizia que eram pra fazer. 

Nesse dia fomos dormir na casa da minha avó, ela acolheu minha mãe. 

Eu dormi uns dois dias na casa dela e logo minha irmã do meio, que já era de maior, alugou um kitnet e fomos eu, ela e minha mãe. 

Meu pai achou que minha mãe voltaria 1 semana depois, mas ela não voltou mais. 

E um mês depois, minha avó, a mãe dela morreu.

Continua.

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